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Mamãe, o que é gay?

terça-feira, abril 14, 2015

Quando eu fazia faculdade, eu tinha um amigo que era gay. E este amigo morava com seu companheiro há mais de dez anos. Ambos eram liiindos. Mas tão lindos que eu achava um pecado dois deuses gregos daqueles serem gays.

E eu era muito, mas muito amiga deste meu amigo gay. Não tenho preconceito algum. Muito pelo contrário. Acho que os gays são pessoas extremamente leais, sinceras e o amor entre eles é uma coisa tãããããããooo "amor", que acho que nunca vi um amor tão sincero entre um homem e uma mulher, como é o amor e o respeito entre um casal gay.

Eu sempre contava as minhas aventuras de mãe para este meu amigo. Na época eu morava em chácara. Tinha lebres, pavão, galinhas, faisão, gansos, tartarugas e dez cães. Meu amigo, que a partir de agora vou chamá-lo de Douglas, tinha enorme curiosidade de conhecer meus filhos e minha chácara.

Um belo dia nós combinamos dele vir passar um sábado conosco e trazer o Marcelo, seu companheiro.

Na sexta, uma amiga veio dormir em casa porque tinha brigado com o namorado e veio desabafar comigo.

Enquanto as crianças jogavam vídeo-game, ela me contava o motivo da briga com o namorado e eu contava da visita do Douglas que seria no dia seguinte, que ele ira trazer o Marcelo e tals... Mostrei a ela a foto dos dois e ela disse:

- Minha nossa!!!! Isso é um atentado terrorista contra nós mulheres. São muito lindos... Como podem ser gays?

Um comentário normal. Nós mulheres héteros temos a mania de não nos conformarmos quando um homem é muito bonito e é gay. Assim como os homens não se conformam quando uma mulher muito bonita se interessa por outra mulher... Infelizmente não mandamos no  coração...

E eu e minha amiga conversamos a noite toda sobre muitos assuntos. Minha separação, ex namorados, faculdade, filhos, trabalho, etc... E as crianças no vídeo-game.

Fomos dormir para acordar cedo, preparar o churrasco e receber meus amigos Douglas e Marcelo.

Era mês de abril, e ainda estava meio calor.

As crianças se divertiam na piscina e eu e Carla estávamos na cozinha de fora preparando as coisas.

Enfim Douglas e Marcelo chegaram. Mostrei a chácara toda e ficaram encantados com os bichos. Conheceram as crianças e elas perguntaram se eles tinham trazido roupa de banho para brincar na piscina com eles.

Tudo perfeito.

As crianças continuaram na piscina. Nós quatro fomos até à cozinha. Douglas e Marcelo abriram cerveja e eu e Carla estávamos recheando as barquinhas com maionese quando as crianças gritam da piscina:

- Mamãeee! Mamãe!!!

E como o som estava meio alto, ficava impossível ouvir o que eles estavam dizendo. Então eu pedi:

- Venham falar aqui perto de mim. O som está ligado e não consigo ouvir vocês. E estou com visita. Não vou ficar gritando.

Me arrependi muito por ter dito isto.

Os dois obedientes saíram da piscina, foram até à cozinha e soltaram a bomba:

- Mamãe, eles que são os gays que vocês estavam falando ontem? - perguntou a Bárbara.
- São eles? Vocês falaram tanto de gays... O que é gay mamãe? - perguntou o Ives.

Eu queria M O R R E R!!!! Sabe quando você fica parada sem saber o que fazer? Eu só queria que o chão se abrisse e pudesse me engolir. Ou eu tivesse o poder de me transformar numa mosca e sair voando dali...

E aquele silêncio que parecia uma eternidade... Eu não sabia o que fazer... Simplesmente fiquei parada sem resposta e meu menino interrompeu o silêncio:

- Fala mamãe. O que é gay? - ele insistiu..







Então eu comecei a explicar:

- Olha, sabe quando as pessoas começam a namorar? Então, a gente sempre vê homem namorando com mulher, certo?
- Certo. - os dois responderam ao mesmo tempo.
- A gente chama de gays, os homens que gostam de namorar com homens e mulheres que gostam de namorar com mulheres.
- Ah... O Douglas namora o Marcelo e os dois são gays? - Bárbara perguntou.
- Sim. Eles são gays. - eu respondi.

Eis que meu filho tem sempre que perguntar algo mais e manda:

- E eles beijam na boca de língua? - ele perguntou.
- É claro né Ives? Se eles são namorados... - respondeu a Bárbara no meu lugar.
- Então gay é isso? - questionou Ives.
- Homem que namora com homem e mulher que namora com mulher? - indagou Bárbara.
- Sim. É isso. - eu respondi rezando para que eles não me perguntassem mais nada.

Então eles disseram:

- Ah é só isso? - Bárbara perguntou.
- Gay é simples assim? - Ives perguntou.
- Sim. Porque? - desta vez eu perguntei.
- Porque do jeito que todo mundo fala na rua e na televisão, eu achei que gay fosse uma pessoa muito maldosa. - Bárbara disse.
- É. A gente achava que era uma coisa muito feia e perigosa. Muito perigosa - disse o Ives.
- Vocês acham feio ser gay? - eu perguntei.
- Eu não. - respondeu o Ives.
- Eu também não. - respondeu Bárbara.

E saíram correndo para mergulhar na piscina. Nunca senti um alívio tão grande por ter meus filhos longe de mim como nesse dia. 

Antes que eu dissesse algo, meu amigo Douglas me disse:

- Ângela, estou admirado da sua explicação. Admirado por você contar aos seus filhos com tanta naturalidade.

E eu com minha mania de explicar até o que não tem explicação, fui querer explicar o que tinha acontecido na noite anterior, que não estávamos falando mal deles, que eu e Carla estávamos comentando sobre eles, que eram muito lindos, que viviam juntos há mais de dez anos e que a união deles era  um exemplo de respeito e blá, blá, blá, quando ele me interrompeu: "Para Ângela. Fica tranquila. Entendemos perfeitamente."

Ainda bem que ficou tudo bem. E no final Marcelo ainda disse:

- Você percebe que a criança é inocente né? Não tem preconceito nenhum. Não tem maldade.

Concordei. Realmente as crianças não tem preconceito. Meus filhos enxergaram nos meus amigos dois seres humanos. Quem faz o preconceito são os adultos.

E ser gay é somente isso que eu disse aos meus filhos: "Homem que gosta de namorar com homem e mulher que gosta de namorar com mulher."

Simples assim. No mais, são iguais a todo mundo. Fazem compras, pagam impostos, estudam, trabalham, passam por maus bocados e bons também, sofrem, riem, choram e vivem de forma intensa um amor que não conseguem explicar, só amam.

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2 comentários

  1. Seria tão bom se no mundo adulto as coisas fossem simples assim e não houvesse preconceito nenhum com absolutamente nada... nem gordo, nem surdo, nem cego, nem cadeirante, nem negro, nem índio, nem japonês...

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    1. Seria ótimo Ligia. Desde pequenos meus filhos já se depararam com as mais diferentes situações. Procurei esclarecê-las da melhor maneira possível. Mas infelizmente algumas pessoas transmitem o preconceito às crianças...

      Valeu a visita.Beijo

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Muito obrigada, de coração, por sua visita. Adoraria se deixasse um comentário.